Tema

Articulação e toque

Como dar alma a um instrumento sem dinâmica

O cravo não permite variar a intensidade pela pressão da tecla — todas as notas têm o mesmo volume. A expressão depende, então, inteiramente do tempo entre as notas: o quanto cada som é sustentado, quanto silêncio o segue, como ele se liga (ou não) à nota seguinte. Essa é a articulação.

O ataque — princípios convergentes

SM
Polpa, ímpeto, borda
Sancta Maria: atacar com a polpa dos dedos (não unhas); forte e firme; nas bordas das teclas; com igualdade entre as duas mãos. Cap. XV.
FC
Doçura, perto das teclas
Couperin: dedos próximos das teclas garantem doçura. Plectros suaves para iniciantes. A força não conta — a flexibilidade conta.
JR
Cair, fluir
Rameau: os dedos caem (não batem) e fluem de um ao outro. A mão sustenta os dedos; nunca o contrário.

O legato — articulação predominante

Sancta Maria — limpeza e distinção

"O dedo que atacar primeiro se levante antes que o outro que segue [...] o levantar de um pouquinho cada dedo depois de haver atacado a tecla." É um legato com micro-articulação: notas conectadas, mas com um pequeno espaço para distinguir-se.

Couperin — legato moderno

O legato perfeito torna-se ideal. Couperin lamenta a maneira antiga (3 sobre 2 nas terças) "que não produz nenhum legato"; recomenda a substituição de dedos sobre uma mesma nota.

"É preciso conservar um legato perfeito naquilo que se executa."

Rameau — legato como resultado

"Aquele que acaba de afundar uma tecla a deixe no mesmo instante que seu vizinho afunde uma outra." A simultaneidade do levantar/atacar produz o legato. A descida progressiva do assento "termina proporcionando ao toque todo o legato".

★ A evolução do ideal

1565: legato com pequenas separações entre notas, característico do estilo polifônico.
1717: legato perfeito como ideal; substituição de dedos como técnica.
1724: legato como consequência mecânica da postura correta.

Os afetos cantáveis — a alma de Frescobaldi

"Tendo conhecimento de quanto é apreciada a maneira de tocar com afetos cantáveis e com diversidade de passagens..." — Frescobaldi, abertura do prefácio (1637)

Frescobaldi não fala de articulação no sentido técnico, mas dá princípios de expressão que dependem inteiramente dela:

Frescobaldi sobre arpejos e ligaduras

Aspiração e Suspensão — articulação como expressão

Couperin elevou a articulação ao nível de ornamento. Aspiração e Suspensão não são adornos melódicos — são silêncios calculados:

Aspiração

Antes de uma nota, o intérprete tira a nota anterior com um pouco de antecipação. O resultado: a nota seguinte parece "respirar".

"Mais intensa nas passagens leves e rápidas; menos nas doces e lentas."

Suspensão

Antes de uma nota, o intérprete insere um silêncio. O resultado: a nota seguinte ganha gravidade, presença emocional.

"Quase unicamente nas Peças doces e lentas. Orientado pelo gosto de quem executa."

"Sendo os sons do Cravo fixos, cada um individualmente, e por consequência sem poderem ser aumentados nem diminuídos, pareceu quase insustentável até o momento que se pudesse dar alma a esse instrumento. [Mas] o efeito expressivo deve seu resultado à cessação e à suspensão dos sons, feitas no momento certo." — Couperin

Síntese

O cravo barroco — segundo seus quatro tratados — não busca o legato uniforme do piano romântico. Busca um legato variável, articulado, retórico: cada nota tem peso próprio, cada frase respira, cada cadência se sustenta. A articulação é a dinâmica do cravo.

Articulação ao cravo — gravações de referência