Girolamo Frescobaldi (Ferrara, 1583 — Roma, 1643) é, com
Sweelinck, o mais influente compositor de
teclado da primeira metade do século XVII. Suas recomendações Ao Leitor, embora
curtas, são consideradas as mais importantes fontes da prática de teclado do
século XVII.
📖 Contexto histórico
O prefácio foi publicado em várias versões nos dois livros de Tocatas, de 1615 a 1637.
Esta é a última versão, do Il secondo libro di toccate (Roma, 1637).
Frescobaldi guia o intérprete no novo estilo de música para teclado — o
stylus fantasticus —
que ele próprio estava criando. Em 1637, Froberger
viaja a Roma para tornar-se seu aluno.
Ouça antes de ler
Prefácio
"Tendo conhecimento de quanto é apreciada a maneira de tocar com afetos cantáveis
e com diversidade de passagens, pareceu-me interessante mostrar-lhe quão favorável e
afeiçoado sou por estes meus singelos trabalhos..."
— Frescobaldi, abertura do prefácio
O prefácio compõe-se de nove pontos numerados — instruções precisas que
destravam a notação esquemática das tocatas:
Ponto 1
O tempo livre — como nos madrigais
"Primeiramente, este modo de tocar não deve estar sujeito ao tempo, como vemos usar nos
madrigais modernos que, embora difíceis, são facilitados pelo tempo conduzido ora lânguido,
ora rápido e mesmo suspenso no ar de acordo com os seus afetos ou sentido das palavras."
★ Princípio fundamental
O tempo nas tocatas de Frescobaldi nunca é literal. A pulsação se dobra ao
afeto. A analogia com o madrigal — música vocal que segue o sentido do texto — autoriza
toda flexibilidade rítmica subsequente.
↗ Couperin sobre cadência e movimento
Ponto 2
Tocatas em passagens autônomas
"Nas tocatas, levei em consideração não só que sejam abundantes em passagens diversas e
afetos, mas também que cada uma dessas passagens possa ser tocada independentemente uma
da outra, de modo que o executante não seja obrigado a terminar todas até o final da obra,
mas possa parar onde lhe parecer bem."
As tocatas são seções (passi)
relativamente independentes. O intérprete pode interrompê-las em pontos cadenciais — um conceito
modular impressionante para o ouvinte moderno acostumado à narrativa fechada da peça.
Ponto 3
Os começos: arpejos e ligaduras
"Os começos das tocatas são feitos comodamente e arpejando; desse modo, as ligaduras ou
dissonâncias, tanto no começo como também no
meio da obra, serão tocadas novamente, para não deixar vazio o som do instrumento. Tal
repetição será retomada ao gosto de quem toca."
Como o som do cravo decai rapidamente, Frescobaldi instrui que as ligaduras e
dissonâncias sejam reatacadas — um arpejo "vivo" para sustentar a harmonia. A escolha
de quantas vezes repetir fica ao critério do intérprete.
Ponto 4
Pausa após trinados e passagens
"Na última nota, seja de trinados ou de passagens de salto ou de grau conjunto, deve-se
parar, mesmo que essa nota seja uma colcheia, ou fusa,
ou diferente da que segue, pois essa parada evitará confundir uma passagem com a outra."
A clareza estrutural exige pequenos repousos entre seções — mesmo quando
a notação não os indica. Cada passagem tem seu fim, e o intérprete deve sublinhá-lo.
Ponto 5
Cadências sustentadas
"As cadências, ainda que sejam escritas rápidas, devem ser muito sustentadas; e ao se
aproximar do final das passagens ou das cadências, se tocará sustentando o tempo mais
lentamente. A separação e a conclusão das passagens se darão quando ambas as mãos
encontrarem uma consonância escrita em mínimas."
Princípio que se tornará universal: ritardando nas cadências. Frescobaldi também dá um
sinal claro para detectar fins de seção — quando ambas as mãos chegam a uma consonância em
Mínimas.
Ponto 6
Trinado em uma mão, passagem na outra
"Quando se encontrar um trinado na mão direita,
ou mesmo na esquerda, e ao mesmo tempo uma passagem na outra mão, não se deve dividir nota
por nota, mas somente procurar fazer com que o trinado seja rápido e a passagem seja
executada afetuosa e menos rapidamente; caso contrário, haveria confusão."
★ Princípio da independência das mãos
Não tente sincronizar matematicamente trinado e passagem: deixe o trinado correr livre,
e toque a passagem expressivamente. O cérebro do ouvinte sintetiza o que parece ser separado.
Ponto 7
Colcheias e semicolcheias juntas — o ponto
"Encontrando-se alguma passagem de colcheias e de semicolcheias juntas nas duas mãos, não
se deve tocar muito rápido; aquela que fará as semicolcheias deverá fazê-las um tanto pontuadas,
isto é, não a primeira, mas a segunda com um ponto, e assim todas, uma não e outra sim."
Aqui Frescobaldi propõe uma desigualdade lombarda — a segunda nota mais
longa, criando um efeito quase de inégale "invertido". Compare com a
elegância de Sancta Maria.
↗ Sancta Maria — três maneiras de Colcheias
Ponto 8
Antes das passagens duplas — parar
"Antes que se façam passagens duplas de semicolcheias com ambas as mãos, deve-se parar na
nota precedente, mesmo que seja preta. Então, resolutamente, se fará a passagem para
realçar ainda mais a agilidade da mão."
Para impressionar o ouvinte com agilidade nas passagens dobradas, marque uma pequena
suspensão antes — o silêncio prepara o brilho. Princípio retórico simples e eficaz.
Ponto 9
Partitas, Passacalhas e Chaconas
"Nas Partitas, quando se encontrarem passagens
e afetos, será bom adotar um tempo mais lento, o que se observa também nas tocatas. As outras
seções que não contêm passagens poderão ser tocadas em um tempo um pouco mais rápido,
deixando ao bom gosto e fino julgamento do executante a condução do tempo, na qual consiste
o espírito e a perfeição desta maneira e estilo de tocar."
"As Passacalhas poderão ser tocadas
separadamente, da maneira que mais agradar, ajustando o tempo de uma parte a outra, assim
como as Chaconas."
★ Histórico
Ao colocar lado a lado Passacalha e Chacona em seu Il secondo libro di toccate
(1627), Frescobaldi tornou-se aparentemente o primeiro compositor a explorar
o potencial dessas composições como gêneros pares.
Princípios sintéticos
1 · Tempo flexível
Os afetos comandam o andamento. Nada de metrônomo.
2 · Estrutura modular
Tocatas como mosaicos de passagens. Pode-se parar em qualquer junta cadencial.
3 · Sustentar o som
Reatacar dissonâncias, arpejar começos. O cravo tem decay; combata-o.
4 · Cadências lentas
Ritardando expressivo no fim de cada seção, mesmo quando não escrito.
5 · Independência
Trinado e passagem em mãos diferentes? Não sincronize: deixe que coexistam.
6 · O bom gosto
"O fino julgamento do executante" — princípio que atravessa Couperin e Rameau.
↗ Tema: Ritmo e tempo
↗ Tema: Articulação