Thomas de Sancta Maria · Valladolid, 1565 · Capítulos XIII a XIX
Thomas de Sancta Maria (Madrid, ? — Ribadavia, 1570), frade dominicano,
organista nos mosteiros da Castilla. Sua obra — examinada e aprovada pelos organistas
reais Antonio e Juan de Cabezón — é
a mais antiga e detalhada descrição de técnica de teclado. Embora dirigida
principalmente ao clavicórdio, suas
recomendações são igualmente úteis ao cravo
e ao órgão.
📖 Recorte traduzido
Esta edição traduz os Capítulos XIII a XIX, que tratam especificamente de técnica de teclado,
ornamentos e dedilhado. O Livro chamado a Arte de tocar Fantasia tem duas partes;
a primeira (até o capítulo XII) trata de rudimentos de música e a segunda de procedimentos
harmônicos e contrapontísticos.
Para que toda música tenha aquela graça e vida que a ela se deve, é necessário que se toque
com todo primor que para isso se requer.
É clara a diferença entre uma mesma obra tocada por um músico perfeito ou por um grosseiro:
pelo perfeito "parece muito elevada e de excelência"; pelo imperfeito, "baixa e grosseira",
como se fossem obras distintas.
As oito condições
1
Tocar no Compasso
Manter a métrica e a pulsação — o "golpe baixo" no início do compasso e o "golpe alto" no meio compasso.
2
Pôr bem as mãos
Mãos em garra, "como mãos de gato"; dedos arqueados; palmas baixas; polegar e mínimo encolhidos. Cap. XIV.
3
Atacar bem as teclas
Com a polpa dos dedos, sem unhas, sem golpear do alto, na borda das teclas. Cap. XV.
4
Tocar com limpeza e distinção
Cada dedo se levanta antes do seguinte atacar, evitando notas embotadas. Cap. XVI.
5
Correr bem as mãos
Subindo e descendo o teclado com dedos apropriados, virando levemente as mãos. Cap. XVII.
6
Atacar com dedos convenientes
O coração do tratado: tabelas completas de dedilhado para todos os contextos. Cap. XVIII.
7
Tocar com elegância
As três maneiras de "deter-se e correr" Semínimas e Colcheias — origem das notes inégales. Cap. XIX.
8
Fazer bons Redobros e Quebros
Os dois tipos de ornamento sistematizados por Sancta Maria — antecedente direto dos trinados e mordentes barrocos. Cap. XIX[B].
★ As três condições principais
Ao final do tratado, Sancta Maria isola três como mais essenciais: (1) trazer as
mãos muito encolhidas; (2) não atacar as notas do alto, mantendo os dedos
próximos das teclas; (3) atacar as teclas com a polpa dos dedos, na borda.
Capítulo XIV
Do modo de pôr bem as mãos
"As mãos se ponham em garra, como mãos de gato, de tal maneira que entre a mão e os dedos,
de forma nenhuma, haja alguma corcova; mas, ao contrário, o nascimento dos dedos deve estar
muito afundado, de tal maneira que estejam mais altos que a mão, arqueados, e assim ficam
mais estirados para atacar com maior ímpeto."
— Sancta Maria, Cap. XIV
Numeração dos dedos
Sancta Maria adota a numeração que persistiria até o tratado de Couperin:
Número
Dedo
1
polegar
2
indicador
3
médio
4
anelar
5
mínimo
Três princípios para a posição das mãos
Mãos em garra, dedos arqueados como num arco esticado — quanto mais estirados, mais firme o ataque.
Mãos encolhidas: os quatro dedos (2, 3, 4, 5) próximos uns dos outros, especialmente unidos os dedos 2 e 3 (sobretudo na mão direita). O polegar caído e dobrado para dentro; o mínimo encolhido, quase tocando a palma.
Dedos 2, 3 e 4 sempre sobre as teclas, mesmo quando não estão tocando. O dedo 2 da mão direita um pouco mais elevado que os outros.
Cotovelos: próximos ao corpo, sem força; afastam-se apenas para sequências longas
(subir com a esquerda, descer com a direita).
Visualizar a posição das mãos
Capítulo XV
Do modo de atacar as teclas
Seis recomendações para o ataque das teclas:
Polpa dos dedos, não unhas. "Como a carne é macia, ataca com brandura e suavidade." As unhas produzem som "muito a madeira das teclas e pouco as notas".
Forte e com ímpeto. "Atacar firme" — para que as notas tenham vida e espírito.
Ambas as mãos igualmente. Mesmo numa consonância de várias notas, todas devem soar como uma só voz.
Não atacar do alto. Trazer os dedos próximos das teclas; após o ataque, levantá-los pouquíssimo. Atacar nas bordas das teclas (brancas e pretas).
Afundar as teclas adequadamente — no clavicórdio, sem pressionar demais (o que altera a afinação).
Manter os dedos sobre as teclas sem apertar nem afrouxar, "para que as notas tenham sempre uma mesma qualidade de som".
"O bem atacar as teclas é também uma das coisas mais essenciais e principais que há no tocar."
— Sancta Maria, Cap. XV
Capítulo XVI
Do modo de tocar com limpeza e distinção de vozes
Duas regras essenciais:
O dedo que atacou primeiro deve se levantar antes do seguinte atacar.
Se um dedo "alcançar" o outro, as notas ficam sobrepostas — "é como atacar segundas",
e o que se toca fica "sujo e embolado".
Levantar pouquíssimo cada dedo após o ataque, sem encolhê-lo nem dobrá-lo
(exceto nos Redobros e Quebros).
Esta é a regra fundamental do legato não-perfeito
do teclado antigo: a articulação clara das vozes vem do tempo entre o levantar e o atacar,
não do ligar absoluto.
Capítulo XVII
Do modo de correr as mãos
Quatro princípios para escalas e passagens:
Encolher muito as mãos.
Virar levemente as mãos no sentido em que se corre.
Para escalas com dois dedos (3-4 ou 2-3), levantar mais o dedo "primário" e deixar o "secundário" deslizar pelas teclas, "como se arrastando".
Os dedos 2, 3 e 4 sempre sobre as teclas, sem tirá-los fora.
Capítulo XVIII
Do modo de atacar com dedos convenientes (Dedilhado)
A mão direita tem um dedo principal (o terceiro); a mão esquerda
tem dois (segundo e terceiro). São "principais" porque com eles se começam e
acabam os Redobros e
Quebros.
⚠ Princípios gerais
Nenhum polegar ataca teclas pretas (exceto em oitavas ou caso de necessidade).
Em Semínimas ou Colcheias, nunca duas notas seguidas com o mesmo dedo.
Raramente se sobem ou descem todos os cinco dedos em sequência: usa-se 1-2-3-4 (aceitável) e excepcionalmente 1-2-3-4-5 (raro).
Dedilhados para notas longas
Semibreves (em uma só voz)
Mão
Dedilhado
Direita
3 3 3 3... (sempre o do meio)
Esquerda
2 3 2 3... ou 2 2 2... ou 3 3 3...
Mínimas
Mão
Dedilhado
Direita
3 3 3 3...
Direita descendente (alternativa)
3 2 3 2... ou 2 3 2 3...
Esquerda
2 2 2... ou 3 3 3...
Dedilhados para escalas em Semínimas e Colcheias
Mão direita ascendente
Sobe com 3-4 (começando com 3), excepcionalmente com pegada inicial de 2:
3434...
"Essa regra é geral, sem exceção."
Exemplo · Mão direita ascendenteTrês variações da escala ascendente: 3-4-3-4-3-4, 2-3-4-3-4-3-4 e 1-2-3-4-3-4-3 · clique para ampliar
Mão direita descendente — três variações
Variação 1 — para Semínimas:
3232...
Variação 2 — para Colcheias (com passagem do polegar!):
321321...
Variação 3 — para Colcheias em número ímpar (5, 9, 13):
Descendente em Colcheias (com passagem do polegar):
123412341234...
Exemplo · Mão esquerda em ColcheiasSequências de Colcheias: descendente 4-3-2-1-4-3-2-1 (à esquerda) e ascendente 1-2-3-4-1-2-3-4 (à direita), com a passagem do polegar entre cada grupo
★ Detalhe histórico
É notável que Sancta Maria, em 1565, já descreva sistematicamente a
passagem do polegar em escalas longas —
técnica geralmente atribuída a J. S. Bach quase dois séculos depois. Rameau a defenderá
explicitamente em 1724. Couperin, em 1717, ainda hesita: cultiva o cruzamento do 3 sobre o 2.
Exemplos musicais originais (fac-símile da edição UFRJ)
As páginas a seguir mostram os exemplos musicais com os dedilhados anotados pelos
tradutores, exatamente como aparecem na edição de 2013. Clique para ampliar.
Escalas em Semínimas e ColcheiasPrimeira oitava encolhidaHexacorde e escala dedilhadaTrês maneiras de Colcheias (notes inégales)
Oitavas estendidas — exemplos
Para a oitava regular ("estendida") do teclado, Sancta Maria oferece variações de
dedilhado tanto em Semínimas quanto em Colcheias:
Exemplo · Oitavas estendidas em Semínimas (mão esquerda)Variações de dedilhado: 1-1-2-3-4-3-2-3 e 1-2-3-4-3-4-3-4Exemplo · Oitavas estendidas em ColcheiasTrês variações ascendentes (2-1-2-1, 3-2-1, 4-3-2-1) e descendentes (3-4-3-4, 2-3-4-3-4, 1-2-3-4-3-4)
Para o detalhamento completo das oitavas curtas, melodias específicas e consonâncias,
consulte a página temática sobre Dedilhados.
Do modo de tocar com elegância (Desigualdades rítmicas)
Para tocar com elegância (buen ayre),
Sancta Maria propõe três tipos de desigualdade — antecedente direto das notes inégales francesas.
Para Semínimas — uma maneira
"Deter-se na primeira e correr a segunda" — como se a primeira fosse pontuada e a segunda fosse Colcheia.
♩ ♩ ♩ ♩ → ♩.♪ ♩.♪
"A semínima que se corre não há de ir muito corrida e sim um pouco moderada."
Exemplo · Cap. XIXExemplos da aplicação das três maneiras nas Colcheias — observe os pontos sobre as cabeças das notas que devem atacar no meio compassoExemplo · Cap. XIX (a duo)"A duo" — exemplo a duas vozes ilustrando as desigualdades
Para Colcheias — três maneiras
1
Pontuar a primeira, correr a segunda
Como se a primeira Colcheia fosse pontuada e a segunda fosse Semicolcheia. "Serve para as obras que são todas de contraponto e para as passagens longas e curtas de glosas."
2
Correr a primeira, pontuar a segunda (lombarda)
A primeira Colcheia como Semicolcheia, a segunda pontuada. As notas pontuadas não atacam no tempo, mas no vazio. "Esta maneira é muito mais galante que a outra sobredita."
3
Correr três e pontuar a quarta
Três Colcheias como Semicolcheias e a quarta pontuada — vai de quatro em quatro. "Essa terceira maneira é a mais galante de todas."
★ Importante
"A parada das Colcheias não há de ser muita, mas somente quando se assinala e se dá a entender
um pouco, porque uma parada muito grande causa desgraça e feiura à música." — As inégales são
sutis, não dramáticas.
A oitava condição: a sistematização dos ornamentos. Sancta Maria foi
o primeiro a sistematizá-los na história da música ocidental.
Definições
Redobro redoble
"Notas dobradas ou reiteradas com notas imediatas":
mi - ré - mi - fá - mi - fá - mi - fá - mi
Tem uma nota imediatamente inferior. Faz-se sobre Semibreves.
Quebro Reiterado quiebro
Como o Redobro, mas sem a nota inferior:
mi - fá - mi - fá - mi - fá - mi
Equivale a um trinado simples. Faz-se sobre Mínimas.
Quebro Simples
Curtos, de duas ou três notas — equivalem ao mordente moderno:
mi - fá - mi ou fá - mi - fá
Faz-se em Semínimas (uma sim, outra não).
Dedilhado dos ornamentos
Redobro / Quebro com Tom e Semitom (3 dedos)
Mão
Dedilhado
Início → Fim
Direita
2 3 4 3 2 3 4 3
começa e acaba com 3
Esquerda (var. 1)
3 2 1 2 3 2 1 2
começa e acaba com 2
Esquerda (var. 2)
4 3 2 3 4 3 2 3
começa e acaba com 3
Quebro Reiterado de Mínimas (2 dedos)
Mão
Dedilhado
Direita
3 4 3 4 ... 3 ou 2 3 2 3 ... 2
Esquerda
2 1 2 1 ... 2 ou 3 2 3 2 ... 3
★ As quatro condições para Redobros e Quebros perfeitos
Juntar todos os dedos 2, 3, 4 e 5 uns aos outros. Sobretudo, "carne com carne" — colocar o dedo "auxiliar" um pouco mais alto e apoiá-lo levemente sobre o dedo principal.
Tirar fora das teclas os dedos que atacam as notas mais grave e aguda do ornamento.
O dedo da nota mais aguda na borda da tecla; ir tirando-o pouco a pouco até final, "para que o ornamento se acabe muito cortado e finalizado".
Virar um pouco a mão que faz o ornamento para a parte superior (exceto nos Quebros descendentes de Semínimas).
Início "moderno" (com nota acima)
"Há muito que se notar, por grande requinte, que agora se usa começar o Redobro e o Quebro
Reiterado de Mínimas a partir de uma nota acima da nota em que termina; e além disso, a primeira
nota há de atacar sozinha, e a segunda nota há de atacar na consonância que então se der."
— Sancta Maria, Cap. XIX[B]
Esta é a indicação mais antiga conhecida do trinado começando pela nota superior,
prática que vai persistir como regra até Couperin: "deve-se sempre começar [o trinado] sobre o tom ou sobre o semitom acima".
Sancta Maria documenta em seu tratado dezenas de variações de dedilhado —
cada uma para uma situação específica (oitavas encolhidas, oitavas estendidas, melodias
em sistema hexacordal, Quebros simples e reiterados, etc.). Abaixo, a galeria completa
de exemplos musicais do tratado, todos clicáveis para ampliação:
⊕ Mostrar todos os exemplos · Cap. XVIII (oitavas encolhidas e estendidas)
p. 28 · oitava encolhidap. 29 · variaçãop. 30 · 2ª oitava encolhidap. 30 · 3ª oitava encolhidap. 31 · descendente Semínimasp. 31 · variação 1p. 31 · variação 2p. 32 · 2ª oitava em Colcheiasp. 32 · 3ª oitava em Colcheiasp. 33 · oitavas estendidas v2p. 35 · ME · variação 1p. 35 · ME · variação 2p. 36 · MD descendentep. 36 · melodia em A rep. 37 · melodia em D sol rep. 38 · E la · v1p. 39 · consonâncias
⊕ Mostrar todos os exemplos · Cap. XIX (Redobros e Quebros)
p. 42 · Quebro reiteradop. 42 · descendentep. 43 · Quebros simplesp. 43 · ascendentesp. 43 · descendentesp. 44 · início modernop. 44 · variaçõesp. 46 · sequênciasp. 48 · não-atacando no compassop. 49 · Tom + Semitomp. 49 · consecutivosp. 50 · após pontuada