IV

Da Mecânica dos Dedos no Cravo

Jean-Philippe Rameau · Paris, 1724 · De la mechanique des doigts sur le clavessin

Jean-Philippe Rameau (Dijon, 1683 — Paris, 1764), compositor, teórico, organista e cravista. Sua "Mecânica" é considerada "possivelmente a mais precisa descrição sobre técnica francesa de teclado jamais escrita" — analítica e racional, em sintonia com os primeiros anos do Iluminismo.

★ Frase-síntese de Rameau

"Não é suficiente sentir os efeitos de uma ciência ou arte; é necessário compreendê-los de um modo que os torne inteligíveis."
— Rameau, prefácio ao Tratado de Harmonia (1722)

Audição recomendada
Princípio fundador

A analogia: andar e tocar

"A perfeição do toque ao Cravo consiste principalmente em um movimento de dedos bem conduzido. [...] A faculdade de andar ou de correr vem da flexibilidade da articulação do joelho; já a de tocar o Cravo, depende da flexibilidade dos dedos em suas raízes." — Rameau, abertura

Todos andamos quase igualmente bem, porque o exercício é constante; quase ninguém move bem os dedos para o teclado, porque o exercício é raro. Pior: "nossos hábitos particulares fazem os dedos adquirirem movimentos tão contrários àqueles que se exigem ao cravo, que essa liberdade é constantemente cerceada".

★ Uma psicologia do estudo

Rameau é o primeiro a notar que o esforço expressivo prejudica a execução: "Se formos minimamente sensíveis aos efeitos dessa arte, faremos esforços para transmitir o que sentimos, e isso só poderá levar a uma tensão prejudicial à execução."

"Um exercício frequente e bem compreendido seja o autor infalível da perfeita execução ao Cravo."
Parte 1

Posição ao instrumento

Numeração dos dedos

Mesma numeração de Couperin: 1 = polegar, 5 = mínimo.

O assento e os cotovelos

"Deve-se, primeiramente, sentar-se ao Cravo de maneira que os cotovelos estejam mais elevados do que o nível do teclado e que a mão possa cair sobre ele unicamente pelo movimento natural da ligação com o pulso."

Os cotovelos acima do nível do teclado — mas nunca exageradamente. Posição tal que o 1 e o 5 possam se posicionar na borda das teclas.

★ Detalhe genial

"Os cotovelos recaiam tranquilamente para os lados, em sua situação natural, posição que precisa ser bem observada e que não se deve jamais modificar, salvo por uma necessidade absoluta."

Esse "ponto fixo natural" do cotovelo é o que dá estabilidade ao toque. Toda pessoa, "de qualquer tamanho que seja", encontra sua posição apenas ajustando o assento.

Os dedos curvados

"O 1. e o 5., estando na borda das teclas, levam os outros dedos a curvarem-se" — ao deixar cair a mão, os dedos arredondam-se naturalmente.

O pulso flexível

"A articulação do pulso deve sempre ser flexível. [...] A mão que por este meio se encontra, por assim dizer, como morta, serve somente para sustentar os dedos que estão a ela ligados."
↗ Tema: Postura Couperin sobre postura
Parte 2

O movimento dos dedos — princípios

1
Origem do movimento
"O movimento dos dedos origina-se em sua raiz, isto é, na articulação que os liga à mão e jamais em outros lugares." A mão move-se na articulação do pulso, o braço no cotovelo.
2
Princípio da economia
"O maior movimento só deve ocorrer na medida em que um menor não seja suficiente" — talvez a frase mais influente do tratado.
3
Independência total
"É essencial que cada dedo tenha seu movimento próprio e independente de qualquer outro" — mesmo quando se desloca a mão.
4
Cair, não bater
"É importante que os dedos caiam sobre as teclas e não que as batam. É necessário que eles fluam, por assim dizer, de um a outro, em sucessão."

★ Compare com Couperin

Rameau, como Couperin, valoriza o legato e a leveza. A diferença é o tom: Couperin é poético; Rameau, mecanicista — mas chegam ao mesmo ideal sonoro.

Parte 3

A Primeira Lição — cinco dedos sobre cinco teclas

"É preciso, no momento, dispor os cinco dedos da mão sobre as cinco notas ou teclas consecutivas."

Posição inicial

1 2 3 4 5

Cinco dedos sobre cinco teclas brancas consecutivas (Do-Ré-Mi-Fá-Sol).

Mão direita: 5 dedos sobre Dó-Ré-Mi-Fá-Sol

Exemplo · Primeira Lição (transcrição UFRJ) Primeira Lição de Rameau, transcrição moderna
"Isto se repete várias vezes sem interromper e com igualdade de movimentos." Mão direita inicia com dedo 1, termina com 5; mão esquerda começa em 5, termina em 1.

A Primeira Lição em fac-símile (1724)

Na tabela original publicada com as Pièces de clavecin (1724), Rameau apresenta: ornamentos com seus nomes, expressões e exemplos; a Première Leçon (a Primeira Lição que estamos estudando); o Menuet en Rondeau recomendado como primeira peça.

Tabela original de Rameau (1724)
Tabela original — ornamentos, Première Leçon e Menuet en Rondeau↗ clique para ampliar

Como praticar

  1. Afundar com o 1 ou com o 5 a tecla sobre a qual ele se encontra, sem que nenhum outro dedo ou a mão faça o menor movimento.
  2. Passar a seu vizinho, e assim de um ao outro.
  3. Coordenação crítica: "aquele que acaba de afundar uma tecla a deixe no mesmo instante que seu vizinho afunde uma outra; pois o levantar de um dedo e o tocar de um outro devem ser executados no mesmo momento."
"Não pese jamais o toque de seus dedos pelo esforço de sua mão; que seja o contrário: sua mão que, sustentando seus dedos, deixa seu toque mais leve. Isso tem uma grande consequência."

★ A igualdade dos movimentos

"Observe a grande igualdade de movimentos entre cada dedo e, principalmente, não precipite jamais esses movimentos, pois a leveza e a velocidade só são obtidas através dessa igualdade de movimentos. Com frequência, por se apressar demasiadamente, foge-se daquilo que se procura."

Resistência das teclas

"Que o teclado sobre o qual se exercita não seja considerado leve demais. Mas, à medida que os dedos se fortificam em seus movimentos, podemos apresentar-lhes um teclado menos leve e chegar gradualmente a fazê-los tocar as teclas mais pesadas."

Praticar com as duas mãos

Primeiro cada mão individualmente; depois juntas. "Começa-se com uma mão antes da outra com a quantidade de notas que se deseja, ora mais, ora menos; enfim, faz-se isso de todas as maneiras possíveis."

O resultado dessa Lição:

Após a Primeira Lição, pode-se aprender o pequeno Minueto em Rondó incluído na tabela do tratado, "tendo-se tomado o cuidado de marcar os dedos e de excluir os ornamentos".

Parte 4

Rolamentos e baterias

Rameau introduz dois conceitos técnicos:

Rolamento roulement

Passagem rápida pelas notas conjuntas da Lição — uma escala. Para rolamentos longos, é necessário a passagem do polegar.

Bateria batterie

Quando as notas da Lição são tocadas em saltos (notas disjuntas) — um acorde quebrado.

A passagem do polegar

"Para continuar um rolamento mais alongado do que aquele da Lição, é preciso somente se acostumar a passar o 1 sob o outro dedo que se queira, e passar um desses outros dedos sobre o 1. Esse método é excelente, sobretudo quando aí se encontram sustenidos e bemóis."

★ Rameau e o polegar

Diferentemente de Couperin (que prefere o cruzamento do 3 sobre o 2 ao estilo antigo), Rameau só prescreve dedilhados modernos — em paralelo com o desenvolvimento de J. S. Bach na Alemanha. A passagem do polegar é central em sua técnica.

"Evite, tanto quanto possível, tocar um sustenido ou bemol com o 1 ou 5, sobretudo nos rolamentos; e de tal maneira que o 1 se encontre sobre a tecla que precede esse sustenido ou esse bemol, pois isso pode facilitar sua execução."

Sancta Maria sobre passagem do polegar

Baterias com mãos cruzadas

Rameau apresenta inovação técnica em duas peças suas:

★ Les Tourbillons — rolamento entre as mãos

"As mãos passam uma sobre a outra, mas é preciso observar bem que o som da primeira tecla sobre a qual uma das mãos passa seja tão ligado ao som precedente, como se estivessem sendo tocados por dedos de uma mesma mão." A letra D indica mão direita (droite), G a esquerda (gauche).

Les Tourbillons — gravações para comparar

★ Les Cyclopes — duas inovações

"Em uma dessas baterias, as mãos fazem entre si o movimento consecutivo de duas baquetas de um tambor; na outra, a mão esquerda passa sobre a direita para tocar alternadamente o baixo e a parte superior. Acredito que essas últimas baterias me são próprias, pelo menos nada do gênero ainda apareceu, e posso dizer, em favor delas, que o olho compartilha o prazer que o ouvido recebe."

Les Cyclopes — 4 interpretações

"A execução destas diferentes baterias e desses diferentes rolamentos depende, principalmente, da flexibilidade do pulso, sendo conduzida por movimentos suaves e leves, e conservando-se o ponto fixo na junção do cotovelo quando a bateria excede a extensão da mão."

↗ Tema: Exercícios e baterias
Parte 5

Trinados e cadências

"Quando se exercitam os trinados ou cadências, é preciso levantar, o máximo possível, os únicos dedos que se utilizam no momento. Mas à medida que o movimento se torna familiar, levantam-se menos esses dedos e o grande movimento torna-se, no final, um movimento vivo e leve."

★ Estratégia de aprendizagem

Comece grande e exagerado para fixar a coordenação; depois, gradualmente, reduza a amplitude até obter um movimento vivo e leve. É exatamente o oposto do instinto inicial do estudante (que tenderia a começar pequeno e tenso).

"É preciso tomar cuidado para não precipitar a cadência no final, para concluí-la; ela se fecha naturalmente, uma vez adquirido o hábito."

Couperin sobre o trinado ↗ Tema: Ornamentos
Conclusão

Observações finais

O assento progressivo

"Quando se sente a mão formada, diminui-se pouco a pouco a altura do assento até que os cotovelos se encontrem um pouco abaixo do nível do teclado. Isso é o que leva, nesse momento, a manter a mão como que colada ao teclado e que termina proporcionando ao toque todo o legato que se pode assim introduzir."

Os cotovelos começam acima do nível do teclado (para que as mãos "caiam") e baixam progressivamente conforme a técnica amadurece — terminando abaixo, posição que "cola" a mão ao teclado e maximiza o legato.

Sobre transposições e adaptações

"Existem algumas Peças neste Livro que podem ser transpostas. Por exemplo, La Musette pode ser transposta para C sol ut, principalmente para ser tocada com viola, e Les Rigaudons, para D la ré." — Tom prático que dialoga diretamente com a vida musical do amador.

"Quando a mão não alcança facilmente duas teclas juntas, pode-se abandonar aquela que não é absolutamente necessária ao canto, pois não se deve estar preso ao impossível."

O cravo e o órgão

"O que eu disse a respeito do Cravo deve ser observado igualmente para o Órgão."

Princípios e perseverança

"Que se lembre bem que quanto mais se persevera nos primeiros princípios, mais se avança na carreira, pois aquele a quem esses princípios desagrada é quase sempre vítima de sua impaciência." — Rameau, conclusão

Síntese — cinco princípios de Rameau

1
Movimento natural
A mão "cai" sobre o teclado; os dedos curvam-se naturalmente; o pulso é flexível.
2
Independência radical
Cada dedo move-se em sua raiz, independentemente da mão e dos outros dedos.
3
Economia gestual
"O maior movimento só deve ocorrer na medida em que um menor não seja suficiente."
4
Igualdade dos movimentos
Velocidade e leveza vêm da igualdade — não da aceleração forçada.
5
Modernidade do polegar
Só dedilhados modernos: passagem do polegar como ferramenta central da escala.

© 2013 by Fagerlande, Tavares, Albuquerque, Barroso e Pereira

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