Tema

Ritmo, tempo e expressão

Da elegância de Sancta Maria à igualdade de Rameau

A questão central: o que está escrito não é o que se toca. Os quatro autores negociam de maneiras diferentes a tensão entre a notação rígida e a execução viva. Sancta Maria propõe três tipos de inégalité; Frescobaldi liberta o tempo; Couperin distingue compasso e cadência; Rameau exige igualdade rigorosa do estudante — e velocidade como consequência.

As desigualdades — notes inégales

Sancta Maria (1565) — buen ayre

A sétima das oito condições. Três maneiras de Colcheias:

  1. Pontuar a 1ª, correr a 2ª (estilo padrão).
  2. Correr a 1ª, pontuar a 2ª (lombarda — "muito mais galante").
  3. Correr 3, pontuar a 4ª ("a mais galante de todas").

Frescobaldi (1637) — ponto invertido

Quando colcheias e semicolcheias coincidem nas duas mãos: "não a primeira, mas a segunda com um ponto, e assim todas, uma não e outra sim".

É um padrão lombardo, raríssimo no resto da Europa do século XVII.

Couperin (1717) — base teórica do inégale francês

"Nós pontuamos várias colcheias consecutivas por graus conjuntos, entretanto, nós as indicamos iguais."

O ouvinte de gosto distingue entre o que é escrito e o que se executa.

★ Princípio importante

Sancta Maria adverte: "a parada das Colcheias não há de ser muita, mas somente quando se assinala e se dá a entender um pouco, porque uma parada muito grande causa desgraça e feiura à música". As inégales são sutis, não dramáticas.

O tempo livre nas tocatas

"Este modo de tocar não deve estar sujeito ao tempo, como vemos usar nos madrigais modernos que, embora difíceis, são facilitados pelo tempo conduzido ora lânguido, ora rápido e mesmo suspenso no ar de acordo com os seus afetos ou sentido das palavras." — Frescobaldi, ponto 1

Frescobaldi estabelece a analogia tocata-madrigal: a música instrumental pode (deve) flexibilizar-se como a música vocal, conduzida pelo afeto.

Em Couperin: compasso vs. cadência

★ Distinção fundadora

Compasso = "a quantidade e a igualdade dos tempos".

Cadência = "precisamente, o espírito e a alma que ao [compasso] devem ser combinados".

"Confundimos compasso com o que se chama de cadência ou movimento."

É a primeira teorização clara do rubato como princípio expressivo: existe o pulso (compasso) e existe a alma do pulso (cadência). Tocar bem é negociar entre os dois.

Rameau — igualdade absoluta no estudo

Rameau toma o caminho oposto:

"Observe a grande igualdade de movimentos entre cada dedo e, principalmente, não precipite jamais esses movimentos, pois a leveza e a velocidade só são obtidas através dessa igualdade de movimentos. Com frequência, por se apressar demasiadamente, foge-se daquilo que se procura." — Rameau

Para Rameau, a expressão final pode incluir flexibilidade — mas o fundamento técnico é a igualdade rigorosa. A velocidade é consequência; a precipitação, inimiga.

Rameau A Primeira Lição

Cadências sustentadas — princípio universal

FB
Frescobaldi (Ponto 5)
"As cadências, ainda que sejam escritas rápidas, devem ser muito sustentadas; e ao se aproximar do final das passagens ou das cadências, se tocará sustentando o tempo mais lentamente."
FC
Couperin
"Deve-se tomar cuidado para não se alterar o tempo nas Peças quando determinado, e para não se permanecer sobre notas cuja duração tenha terminado." Mais sóbrio que Frescobaldi.
JR
Rameau
"É preciso tomar cuidado para não precipitar a cadência no final, para concluí-la; ela se fecha naturalmente, uma vez adquirido o hábito."

O caráter da peça — palavras como guia

Os autores franceses cultivam indicações verbais para o caráter:

Couperin — Tendrement, Vivement

"Não tendo imaginado sinais ou caracteres para comunicar nossas ideias particulares, tentamos remediar isso através de algumas palavras indicadas no início das Peças como Tendrement, Vivement etc., o que se aproxima do modo que gostaríamos de nos fazer entender."

Couperin — caráter de cravo

"Não se deve se afastar do caráter que convém a esse instrumento: as passagens, as baterias que estejam nas mãos; as partes alaudadas e sincopadas, que devem ser preferidas àquelas que são cheias de ligaduras ou de notas demasiadamente graves."

Os Prelúdios — prosa e versos

"Pode-se arriscar afirmar que, dentre muitos assuntos, a Música, em comparação à Poesia, tem sua prosa e seus versos." — Couperin sobre os Prelúdios

Os prelúdios são prosa (livres); a maioria das peças são versos (medidas). Quando Couperin escreve Mesuré num prelúdio, ele "verseja" excepcionalmente.

Síntese — princípios para o estudante de hoje

Comparação de execuções — tempo e expressão