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Dedilhados

Os quatro autores em diálogo · do dedilhado antigo ao moderno

A história do dedilhado de teclado entre 1565 e 1724 é a história da passagem do antigo para o moderno — do par "3 sobre 2" ao polegar passando sob os dedos. Os quatro tratados aqui reunidos cobrem exatamente esse arco.

★ A grande revolução

O dedilhado moderno (com passagem do polegar) já existia em 1565: Sancta Maria descreve-o claramente. Mas só com Rameau (1724) e Bach na Alemanha tornou-se a regra. Couperin (1717) está exatamente no meio do caminho: usa o polegar nas peças, mas ensina o dedilhado antigo "de 3 sobre 2" como ainda válido.

Numeração dos dedos

Os tratados usam diferentes convenções:

Sancta Maria (1565)

Polegar = 1, mínimo = 5. Mesma convenção moderna. Citação literal: "do dedo polegar... contando sucessivamente de um até cinco".

Couperin (1717)

"Estabeleço em relação a este método — diferentemente de meu costume — que se começará a contar o polegar de cada mão como primeiro dedo." Couperin usava antes outra numeração; aqui adota a moderna.

Rameau (1724)

"Os números 1, 2, 3, 4 e 5 designarão os dedos: 1 designará o polegar, 5 o dedo mínimo." A convenção que perdura até hoje.

Escalas — o que cada um diz

Sancta Maria (1565) — mão direita ascendente

Dedos 3 e 4 alternados, "começando com o terceiro":

343434...

"Essa regra é geral, sem exceção." (Cap. XVIII)

Visualização: escala de Dó com dedos 3-4 (Sancta Maria)

Visualização: escala com passagem do polegar (Rameau)

Sancta Maria (1565) — mão direita descendente em Colcheias

Variação 2, com passagem do polegar:

321321...

"Por regra geral [...] quando ao descer com a mão direita tocando Semínimas ou Colcheias, se atacará com o dedo polegar e logo após ele há de se seguir o dedo do meio." (Cap. XVIII)

Sancta Maria (1565) — mão esquerda em Colcheias

Quatro dedos com passagem do polegar:

Ascendente: 43214321
Descendente: 12341234

"Tenha-se em grande conta essa regra, porquanto é muito boa e necessária." (Cap. XVIII)

Couperin (1717) — terças ligadas, modo moderno

Couperin lamenta que "a maneira antiga não produz nenhum legato"; recomenda substituição de dedos sobre uma mesma nota para ligar terças consecutivas — mas ainda assim baseada em pares "3 sobre 2" / "4 sobre 3" no estilo francês.

"Estou persuadido de que poucas pessoas em Paris permanecem irredutíveis a respeito de velhos princípios."

Rameau (1724) — passagem do polegar como regra

"Para continuar um rolamento mais alongado do que aquele da Lição, é preciso somente se acostumar a passar o 1 sob o outro dedo que se queira, e passar um desses outros dedos sobre o 1."

"Evite, tanto quanto possível, tocar um sustenido ou bemol com o 1 ou 5."

Sancta Maria Cap. XVIII Rameau Rolamentos

Dedilhado para ornamentos

Sancta Maria — Redobro (3 dedos)

MãoSequência
Direita2 3 4 3 2 3 4 3 — começa e termina com 3
Esquerda v13 2 1 2 3 2 1 2 — começa e termina com 2
Esquerda v24 3 2 3 4 3 2 3 — começa e termina com 3

Couperin — trinados mais usados

MãoPares
Direita3-2 e 4-3
Esquerda1-2 e 2-3

"Será muito útil poder estimular as pessoas jovens a fazer os trinados com todos os dedos."

↗ Tema: Ornamentos

Resumo: a evolução em 159 anos

1565
Sancta Maria — todas as opções
Sistema completo: 3-4 para escalas curtas (regra "geral"), com possibilidades de 1-2-3-4 + passagem do polegar para passagens longas. Pragmático, didático.
1637
Frescobaldi — não menciona
Não detalha dedilhados (foco no estilo e tempo). A prática italiana do século XVII privilegia o cruzamento "3 sobre 2".
1717
Couperin — transição
Mantém o cruzamento "3 sobre 2" como dedilhado padrão; introduz a substituição de dedos para legato; usa o polegar quando necessário, mas não como princípio.
1724
Rameau — só o moderno
Apenas dedilhados modernos. O polegar é a chave da escala; cruzamentos antigos são abandonados. Em paralelo com J. S. Bach na Alemanha.
Dedilhado em performance — comparações